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A menos de dois meses das eleições e na véspera do início oficial da campanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e os comandantes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), selaram um pacto pela preservação de seu poder.
O arranjo de conveniência para buscar proteção contra ameaças vindas da esfera judicial, impulsionar projetos eleitorais e conter o avanço de rivais nas urnas convergiu para a pauta da reeleição de Lula, vista pelos chefes do Congresso como garantia de blindagem e influência futura.
A articulação foi instigada pela aflição comum com investidas da oposição e ações da Justiça. A mudança mais radical veio de Alcolumbre, que retomou o diálogo com Lula, interrompido em abril, quando o Senado barrou a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF).
A reconciliação começou em uma reunião secreta no dia 4 de agosto. Em jantar de três horas na casa do ministro Alexandre de Moraes, do STF, petista e senador expuseram mágoas e saíram com avaliação de “jogo zerado”.
Oito dias depois, em 12 de agosto, Lula recebeu Alcolumbre no Palácio da Alvorada. O segundo encontro em duas semanas selou o desbloqueio de pautas concretas no Congresso. O senador disse a aliados ter havido uma “retomada integral” da relação — na qual pesou a necessidade mútua.
Agenda eleitoral aproxima políticos, mas cada um calcula os seus ganhos
A trégua veio após a pressão do governo e de membros do STF para impedir o apoio de partidos do Centrão ao presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), coincidindo com o esforço concentrado do Congresso antes das urnas. Lula quer usar a janela legislativa para destravar projetos de forte apelo eleitoral.
Para Alcolumbre e Motta, a harmonia com o chefe do Executivo serve para administrar a pauta do Congresso sem produzir desgastes em suas bases, além de preservar pontes para a próxima legislatura. Ambos planejam continuar nas presidências das duas Casas em 2027.
Na mesa estão o fim da escala 6x1, a PEC da Segurança Pública e a política de minerais críticos, além da medida provisória que suspende a “taxa das blusinhas”. A reunião do dia 12 produziu avanços, mas as três primeiras bandeiras permanecem sem data definida para votação.
A proposta da escala 6x1 é o ponto mais sensível. Transformada pelo governo em bandeira de campanha, a matéria enfrenta resistências. Lula quer acelerar a tramitação antes das eleições, enquanto Alcolumbre tenta equilibrar a reaproximação com o PT e reações de direita, Centrão e setor empresarial.
Motta já expôs publicamente o apoio à reeleição de Lula, apesar da neutralidade nacional de seu partido. Na Paraíba, essa aliança favorece sua própria campanha à Câmara e fortalece o plano de lançar o pai, Nabor Wanderley, ao Senado. Já Alcolumbre sinalizou a aliados que “fará o L”.
Disputa pelo comando do Senado em 2027 orienta movimentos políticos
Para Lula, a adesão de Motta e a reconciliação com Alcolumbre ampliam pontes com o centro justamente quando Flávio Bolsonaro incorpora a eleição do Senado à disputa presidencial. A direita aposta em uma virada conservadora na Casa para mudar a correlação de forças em 2027.
Esse movimento explica parte da urgência de Alcolumbre. O senador pretende conservar a chefia do Senado e precisa do apoio governista desde já. Uma bancada do PL ampliada sustentará uma candidatura adversária de peso, reduzindo sua margem de apoios.
De toda forma, o sucesso de Lula interessa aos três. O petista seguiria no Planalto e teria como aliados os chefes do Legislativo. Motta manteria acesso privilegiado ao governo, enquanto Alcolumbre contaria com o PT e partidos de esquerda para enfrentar a direita liderada pelos Bolsonaro.
Toda essa concertação ocorre em meio ao desgaste provocado por revelações da Polícia Federal (PF) em investigações sobre os bilionários escândalos do Banco Master e das fraudes no INSS. O cerco sobre os centros do poder está se fechando.
Governabilidade, sucesso em uma eleição nacional apertada e sobrevivência política se misturam. Embora não exista um documento formalizado, o "acordão" firmado em Brasília deixa claro que, a partir de agora, Lula, Alcolumbre e Motta dependem diretamente uns dos outros para terem sucesso.

Jornalista de política e economia com foco na cobertura do Congresso Nacional. Passou pelos jornais Diário do Comércio (MG), Gazeta Mercantil, Estado de Minas, Brasil Econômico, Correio Braziliense e A Tarde (BA). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




