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O número de casos defendidos em tribunais superiores pelo escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes cresceu quase 500% depois que seu marido, Alexandre de Moraes, se tornou ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2017. Documentos da Receita Federal mostram que o escritório recebeu R$ 80 milhões só do Banco Master em menos de dois anos. O investimento da família em imóveis também triplicou desde 2017.
Nenhum desses fatos configura crime, mas analistas ouvidos pela reportagem afirmaram que eles deflagram uma discussão sobre a moralidade do faturamento milionário do escritório, possíveis conflitos de interesse e falta de transparência de uma autoridade do Supremo.
A Gazeta do Povo procurou o gabinete do ministro, que não se manifestou até o momento. O espaço segue aberto. O escritório de Viviane Barci de Moraes disse que não vai se pronunciar sobre o assunto.
Com base em dados públicos dos cadastros processuais de tribunais superiores, a reportagem apurou que o escritório da esposa de Moraes tinha registro de 18 processos no Superior Tribunal de Justiça (STJ) antes de o marido assumir no STF, em 22 de março de 2017. Após isso, há ao menos 136 registros protocolares na Corte, aumento de mais de sete vezes.
A diferença também é significativa em processos que tramitam no STF: antes de Moraes ser nomeado ministro, o escritório cuidava de nove ações no Supremo. O número subiu para 23.
Assim, entre STJ e STF, o número de processos defendidos pelo escritório de Viviane Barci subiu de 27 para 159, um aumento de quase 500%.
Para o advogado constitucionalista André Marsiglia, a notoriedade do ministro Alexandre de Moraes funcionou como “principal chamariz do escritório”.
“Do ponto de vista jurídico, embora não se possa afirmar irregularidade sem provas concretas de ilegalidade, o caso evidencia um claro risco de conflito de interesses e de percepção de favorecimento, reforçando a necessidade de maior transparência e mecanismos rigorosos de fiscalização sobre agentes públicos de alto escalão e suas relações familiares e profissionais”, afirma.
Na avaliação do constitucionalista Alessandro Chiarottino, o aumento no número de ações conduzidas pelo escritório de Viviane Barci de Moraes em tribunais superiores não é, por si só, um fator “fora do padrão”, já que esse crescimento pode ocorrer naturalmente em bancas de advocacia.
“No entanto, o ponto que mais chama atenção é o volume das remunerações envolvidas, especialmente em contratos como o firmado com o Banco Master, que destoariam significativamente do que é praticado no mercado para serviços semelhantes”, comenta.
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CPI descobre pagamentos de R$ 80 milhões do Master a Viviane Barci
Um documento sob sigilo da Receita Federal, encaminhado à CPI do Crime Organizado no início da semana, aponta pagamentos superiores a R$ 80 milhões do Banco Master ao escritório de advocacia ligado a Viviane Barci de Moraes. As informações, confirmadas por fontes com acesso ao material, indicam que os repasses ocorreram de fevereiro de 2024 a novembro de 2025, em parcelas mensais próximas de R$ 3,6 milhões, declaradas por meio de retenção de impostos na fonte.
A documentação revela ainda cerca de R$ 4,9 milhões recolhidos em tributos. O envio dos dados ocorreu após a própria comissão identificar a ausência desses registros em remessas anteriores, levantando questionamentos sobre a integridade das informações prestadas ao colegiado.
Sobre os valores específicos, o escritório de Viviane disse que não confirma as informações e questiona a forma como elas vieram a público, classificando-as como incorretas e obtidas de maneira indevida.
O escritório de advocacia ressaltou que dados fiscais são protegidos por sigilo, indicando que não comentaria detalhes sobre os valores ou registros divulgados.
Uma reportagem do jornal O Globo revelou que o escritório de Viviane firmou um contrato de R$ 129 milhões para prestar serviços ao Master. A diferença entre os cerca de R$ 80,2 milhões informados pela Receita Federal e os R$ 129 milhões previstos inicialmente no contrato decorreria da interrupção antecipada da prestação de serviços.
Assinado com vigência de 36 meses, o acordo previa pagamentos mensais ao longo de três anos, o que leva ao montante total estimado. No entanto, a prestação de serviços foi efetivamente realizada de fevereiro de 2024 e novembro de 2025, somando aproximadamente 22 meses, período em que os repasses foram realizados até a liquidação do banco, encerrando o contrato antes do prazo originalmente estipulado, que era o início de 2027.
Analistas dizem que valor de pagamentos está acima da média do mercado da advocacia
O constitucionalista André Marsiglia analisa que este cenário não pode ser considerado normal. “Os valores e circunstâncias expostas não apenas destoam do padrão do mercado jurídico, mas também levantam um forte questionamento de ordem moral, diante da aparente desproporção entre a estrutura do escritório e os ganhos obtidos”, alerta.
Para Marsiglia, a magnitude dos honorários recebidos e a carteira de clientes podem indicar que se pode estar diante de um escritório de grande porte “apenas no papel” e que “não apresenta histórico compatível com o volume financeiro reportado”.
“A utilização de serviços de compliance ou a contratação por instituições, como o Banco Master, não encontra justificativa plausível frente à atuação do escritório e à sua capacidade operacional. É uma situação que beira o imoral, se não a obscena, em termos de proporcionalidade entre a estrutura profissional e os recursos financeiros movimentados”, reforça.
Investimentos em imóveis do casal Moraes cresceram 266%
Um levantamento do jornal Estadão divulgado nesta semana indica que o patrimônio imobiliário do ministro e da esposa passou de R$ 8,6 milhões para cerca de R$ 31,5 milhões nos últimos nove anos, o que representa um crescimento de 266% no período. Ainda de acordo com o levantamento do jornal, a expansão patrimonial teria se intensificado nos últimos anos, com aquisições milionárias no mercado imobiliário que contribuíram para a elevação de ativos.
Segundo Marsiglia, o crescimento expressivo do patrimônio imobiliário da família Moraes, somado ao aumento substancial das ações em instâncias superiores conduzidas pelo escritório de Viviane Barci, merecem atenção sob diversos aspectos.
O jurista acredita que um incremento de processos, aliado a aquisições imobiliárias que quase triplicaram o patrimônio imobiliário, não é condizente com um escritório considerado, segundo ele, de pequeno porte “com 10 a 15 advogados e sem tradição consolidada em tribunais superiores”.
O doutor em Direito pela Universidade de São Paulo Luiz Augusto Módolo lembra que o artigo 13 da Lei nº 8.429/1992, com a redação atualizada pela Lei nº 14.230/2021, reforça o dever de transparência patrimonial como condição indispensável para a posse e o exercício de agentes públicos, tendo em vista que, como ministro, Moraes tem uma renda mensal de cerca de R$ 46 mil, o que equivale ao teto constitucional.
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Investimento pode ter sido feito com recursos poupados, diz analista
Luiz Augusto Módolo também reforça que o crescimento do investimento do casal em imóveis, por si só, não pode ser automaticamente interpretado como irregularidade, já que imóveis são uma forma comum de investimento familiar.
Esses bens representam apenas a parcela visível de um patrimônio construído ao longo do tempo, o que pode ter ocorrido com recursos poupados e posteriormente aplicados em ativos como imóveis, fundos ou outros instrumentos financeiros.
Moraes foi alvo temporariamente da Lei Magnitsky, que impede empresas americanas de fazerem negócios com figuras sancionadas. O investimento em imóveis poderia ser uma opção para pessoas excluídas do sistema bancário.
O jurista argumenta que o debate sobre eventual conflito de interesses não pode ser descartado, mas precisa ser conduzido com cautela e destaca que o ambiente jurídico em Brasília apresenta uma dinâmica própria, na qual escritórios com atuação nos tribunais superiores podem ter “vantagens competitivas em relação a profissionais de outras regiões do país”.
Módolo também ressalta que hipotéticas acusações de corrupção exigem um elevado grau de comprovação, o que torna esse tipo de questionamento sensível. Por outro lado, lembra que mecanismos de controle existem e que evoluções patrimoniais consideradas incompatíveis poderiam e deveriam acionar alertas institucionais.
“Por que, no fim, quem fiscaliza aqueles que exercem funções de controle e fiscalização dentro do próprio sistema?”, indaga.
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Atuação de familiares de ministros e o potencial risco de conflito de interesses
Alessandro Chiarottino também destaca que a própria atuação profissional da esposa e familiares de um ministro do Supremo já levanta, em tese, um potencial risco de conflito de interesses, independentemente dos valores recebidos.
Para o especialista, esse tipo de situação exige atenção redobrada e análise criteriosa sob a ótica da ética pública e da preservação da imparcialidade institucional. O jurista é categórico ao afirmar que o cenário deveria ser analisado sob uma perspectiva de ser ou não moral.
O doutor em Direito Público Mateus Martinis lembra que eventuais suspeitas de conflito de interesses envolvendo integrantes do STF devem, em um primeiro momento, ser analisadas pela própria Corte, que tem competência institucional para apurar a conduta de seus membros.
“Esse modelo é visto como uma limitação, já que coloca nas mãos do próprio tribunal a responsabilidade de investigar situações que podem envolver seus ministros, o que é improvável e sem precedentes”, explica.
O jurista também aponta a possibilidade de atuação do Congresso Nacional, mas observa esse cenário com ressalvas.
“Em casos mais graves, o Senado Federal pode avançar com a abertura de processo de impeachment contra ministros do STF, conforme previsto na Constituição, mas isso é um caminho improvável com a formatação do Senado e do Congresso que temos hoje”, afirma.
Chiarottino completa que, apesar de existirem esses dois caminhos institucionais, ambos se revelam improváveis. “Tanto no caminho interno, no próprio Supremo, quanto no externo, por meio do Senado, estão cercados de forte sensibilidade política e jurídica”, analisa.
Para André Marsiglia, mesmo que haja explicações legais para o avanço patrimonial em imóveis, o cenário reforça a importância de mecanismos de controle e prestação de contas, pois são citados contratos de alto valor e as relações com empresas que atuam no ambiente jurídico com as que são alvos de investigações.
Isso indicaria a relevância de se garantir transparência e evitar qualquer situação que possa comprometer a credibilidade das instituições.
“Assim, contratos de alto valor [envolvendo familiares de ministros] e relações comerciais com empresas investigadas ou com atuação no próprio ambiente jurídico reforçariam a necessidade de maior inspeção pública”, comenta.















